Nunca me senti muito confortável escrevendo. Não por achar que escrevo ruim ou por medo de me expressar mal, mas sim por acreditar que não tenho muito sobre o que falar em um mundo cheio de gente excelente que escreve coisas legais o tempo todo. Mesmo com esse pensamento, me propus, este ano, a começar a escrever um ensaio, um artigo de opinião ou qualquer outra coisa que me dê vontade, uma vez por mês. E, até então, eu não tinha escrito nada. A metade do ano passou, julho chegou e o que importa é que esse projeto saiu do papel!
Primeiro, preciso explicar de onde veio essa ideia de escrever algo mais “longo” uma vez por mês. IA vontade de escrever surgiu depois que me propus a criar projetos criativos. Essa ideia me acompanha desde que vi um vídeo do Arthur Miller abordando o assunto e, de alguma forma, esse vídeo me tirou da zona de conforto. Desde então, uma pergunta não sai da minha cabeça: o que eu quero fazer como um mini-projeto criativo?
Anotei algumas ideias do que eu gostaria de fazer com o intuito de iniciar o quanto antes, mas é claro que não seria tão simples. Os ventos da rotina e do trabalho me puxaram para o olho do furacão e, quando percebi, passaram-se alguns meses e eu não iniciei nada. Por incrível que pareça, o próprio Arthur me dá um empurrão em outro vídeo seu vídeo seu, intitulado Para de “ter ideia” e faz a parada logo!. Então eu fui lá e tirei o primeiro mini-projeto do papel, que foi uma coleção de colagens de elementos gráficos (talvez eu escreva sobre isso no futuro). Em um segundo momento, voltei a desenhar, fotografar e, agora, escrever.
Certo, mas por que mini-projetos criativos e não um projeto criativo? Por que escrever? Como escrever pode ser um projeto criativo para um designer?
No meu ponto de vista, esses tais mini-projetos retiram o peso semântico do termo “projeto criativo”. A ideia aqui é eliminar qualquer barreira que possa interferir na realização do projeto. É para ser algo simples, que demande pouco recurso, pouco tempo e, principalmente, pouco esforço, para poder ser facilmente inserido na minha rotina e que, mesmo assim, traga um novo ponto de vista sobre criatividade, sobre design e sobre o mundo.
Já a proposta de escrever surge através da inspiração de um designer de quem eu gosto muito: William Matiola, que possui um trabalho muito bacana em seu blog, Stoa. Em um momento em que muitos textos na web são feitos por IA generativa, isso me soa como um pequeno ato de resistência e de aprendizado, já que, para o exercício da escrita contínua, é necessário ler, expandir repertório, organizar os pensamentos, e tudo isso tem muito a ver com design, já que, para criar bons projetos, não basta somente a técnica e o conhecimento das ferramentas. É necessário repertório, diálogo com interlocutores, organizar ideias e pensamentos para executar com excelência qualquer desafio que surja pela frente.
Com isso em mente, escrever passa a ser essencial para um designer, pois permite transformar pensamentos soltos em argumentos estruturados, ideias abstratas em algo tangível e, principalmente, dar forma ao que antes estava apenas no campo da intenção. É nesse processo que o designer aprende a se tornar mais crítico, mais consciente das próprias escolhas e mais preparado para comunicar valor por meio do que cria.
Talvez, no final das contas, não seja sobre escrever um artigo por mês, escrever bem, escrever muito ou escrever algo extraordinário, mas seja simplesmente sobre escrever. Sobre fazer, experimentar, errar, ajustar e continuar. Porque é no movimento constante que as ideias ganham corpo, os projetos ganham vida e, pouco a pouco, a gente também passa a entender melhor o nosso próprio processo criativo.